sábado, 18 de fevereiro de 2017

0180499: Profissional exemplar

Sempre achei que seria uma profissional exemplar em qualquer área que eu você desafiada a trabalhar. No começo da faculdade, eu escolhi trabalhar, claro, que meu primeiro emprego não foi nada daquilo que eu aprendia na faculdade. Entrei num julho frio numa empresa da cidade, eu trabalharia no que chamavam de “inferno”, ou o setor de pagamentos. Ali eu entendi, que um emprego pode nos matar um pouco todos os dias.
Descobri que odiava trabalhar com o dinheiro propriamente dito, a manipulação dele. Odiava ser obrigada a mentir para poupar a irresponsabilidade dos meus superiores, mas odiava mais ainda com todas as forças, ter que olhar pra um trabalhador e pai de família que naquele mês, ele não teria seu pagamento e que seu suor não seria recompensado.
Quando descobri tudo isso e entendi que aquilo era realmente o inferno, entrei no conformismo. Tinha um mau humor que não faz parte de mim e uma falta de educação que me fazia chorar, toda vez que eu voltava em si e percebia que eu já estava sendo corroída pela forma de trabalho que o ambiente nos colocava. Meu nível de estresse era tão grande, que meus cabelos começaram a cair mais do que o de costumo e o que é normal, minha unhas todas enfraquecidas, meu sorriso não saia mais com tanta facilidade e quando saia era amarelado, sem graça. Virei uma pessoa cinza, amarga, inimiga de todas as coisas boas da vida.
Chegou meu aniversario — um dia feliz ou deveria ser, fui trabalhar. Não contei sobre meu aniversário, eu só queria mesmo que meu horário de saída chegasse e eu pudesse ir pra casa. Foi o pior dia de trabalho até hoje em minha vida. Chorei. Como nunca pensei que choraria nessa vida. Secou-se minhas lágrimas, voltei ao dinheiro — isso que importa, afinal. E quando me dei conta, eu estava ali, passando mal, tremendo sem me controlar. Estresse. Pressão alta. Mandaram eu ir pra casa mais cedo. Agradeci.
Passaram-se alguns meses, já estava acostumada aquela rotina e aos níveis de estresse, eu tinha, enfim, me tornado a máquina perfeita. A profissional exemplar.
Um belo dia, desse ensolaradas, tomando meu café, me preparando para o trabalho. Voltei por um milésimo de segundo a ser aquela garota toda cheia de vida que eu costumava ser e então, caiu a minha ficha. Estava tudo errado.
Eu era uma garota, no penúltimo ano de faculdade de Farmácia, cheia de vida e sonhos, estava ali, presa em um escritório administrativo, sofrendo todas as pressões que eu nunca sonhei e nunca tive cacife para viver.
Estacionei minha moto, sentei na minha mesa, recolhi meus objetos, subi. Escrevi minha carta de demissão. Terminei meu dia de trabalho. Mais uma vez, não contei pra ninguém sobre a minha demissão. Deu meu horário e alguns comentários já existiam no corredor, me despedi de alguns. Sai pela porta. Foi a sensação mais sensacional de toda minha vida, o sol esquentava aquele dia de julho. O sorriso verdadeiro voltou, o olhar de esperança voltou.
Já se passaram um tempo. Encontrei outro trabalho, agora no que eu escolhi ser. Lógico, tem estresses, mas quando a gente ama, isso é um grão de areia no meio do mar de satisfação. Descobri que nasci para ser farmacêutica, mesmo com tantas dificuldades, essa é o grande amor da minha vida. Aos que gostam de trabalhar com finanças, dinheiro, administração, meu eterno respeito. Admiro o espírito de liderança e da fortaleza de cada um.
Escrevendo minha monografia, parei e resolvi escrever, esse desabafo. Precisa escrever sobre, mesmo depois de tanto tempo. Eu me dei o luxo de sair do que me fazia mal, mas eu não tenho filhos e tinha minhas economias para ficar longe do mercado de trabalho no período de transição. Mas quem não tem, não desiste. Não vire a máquina perfeita, o robô criado pela empresa, tente outro, o que se gosta, o que se sonha, vai que o mundo não te espera e o sonhos também não.